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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O Sul

Tenho a sorte, sim que eu considero sorte, de não pertender apenas a um lugar. E gosto que com o Pedro assim seja.
Que este miúdo pertença a tantos lugares como à cidade que o viu nascer. Ou que estas terras lhe pertençam.
A capital de onde sou está-me no coração até ao fim dos meus dias. É uma cidade que me fascina pela luz que este rio permite iluminar cada prédio, cada rua, reflexos nas janelas sejam antigos ou modernos.
À beira-rio, com espaços verdes ou os contentores vindos dos grandes barcos de mercadorias, o sol espelha na água a alma desta cidade que embora pese a confusão e ausência de ordenamento, é das imagens mais lindas e com cores que ainda não encontrei em mais cidade nenhuma.
Mas também sou de outros lados. Da zona Oeste e do Alentejo.
O mar com águas mais frias e nervosas, inconstantes, o nevoeiro que desde que me recordo em adolescente de só desaparecer com o início da tarde pela força do calor, as chuvadas de Verão que impregnavam o ar com aquele cheiro a terra molhada fazem também parte do que sou e das minhas origens.
Mas o Alentejo, com aquela imensidão de terra a perder de vista, o calor sufocante no silêncio da tarde apenas interrompido pelo falar das cigarras ou dos grilos, as praias ao logo da Costa Vicentina até à próxima província estará eternamente no meu coração e nas minha memórias.
Desde sempre que aquela terra esteve em contradição dentro de mim: ora se em mais pequena a detestava por nada haver para fazer, ora a adorava e saudosamente a revisitava já em adolescente e adulta, independente de terceiros.
A família do Sul é extensa. Há tios e tias e primos e primas em segundo e terceiro grau que vão agora falecendo por força da idade. Pessoas que não recordo de alguma vez ter visto ou falado, embora o meu pai diga que sim. Talvez quando eu era pequena e a cidade era tudo para mim e passava-me completamente ao lado esses familiares das aldeias caiadas de branco e ligados à terra que pouco ou nada dava.
Há uma casa de uns tios lá para a zona de Santiago do Cacém que está desabitada e a morrer. Como os seus anteriores proprietários.
"O que achas do valor? Vende-se? ainda se todos vivêssemos aqui..." Pois é, vende-se.
Mas os sonhos misturam-se com a memórias ainda muito presentes, e apesar de afastada alguns kilómetros da praia, e houvesse possibilidade de trabalho para ambos, iríamos viver para lá.
E com a necessidade cada vez maior de espaço para o filho, penso muito em qual a melhor opção.
Não sou assim tão destemida ou corajosa para mandar tudo ao ar e depois logo-se-vê o que acontece. Já assim pensei. As responsabilidades e preocupações levam-me a ponderar muito bem em tudo, em todos os passos e decisões que eventualmente dê.
Conheço muito bem aquelas praias de Melides, São Torpes, Porto Côvo, e V.N. de Milfontes, a Logoa de Santo André. Perdidamente apaixonada por praia, pelas águas mais quentes e transparentes, pelo calor da areia, por aquela luz que mais que tudo descansava corpo e alma.
O filhote gosta de praia. Nota-se. Está-lhe no sangue como em mim.
E espaço. Muito espaço até de sobra.
Sei que não ficaremos aqui para sempre. Sei que não está escrito nas estrelas ficarmos na cidade.
Só ainda não decifrei se estaremos reservados para o Centro ou se para o Sul.

1 comentário:

Inês de Castro disse...

primeiro...que texto lindo!

segundo...se vieres para o sul...avisa! ;)

beijocas